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Cumprido ciclo olímpico da Rio-16, cartola do tênis abre mão da reeleição
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Eduardo Ohata

O presidente da CBT (Confederação Brasileira de Tênis), Jorge Lacerda, não irá concorrer à reeleição. Cumprido o ciclo olímpico que culmina agora na Olimpíada Rio-2016, o dirigente abriu mão da reeleição a que teria direito de acordo com o estatuto da entidade.

“Cumpri o mandato atual por causa da Rio-2016″, explicou o dirigente em entrevista a este blog.

À época da alteração dos estatutos das confederações esportivas nacionais que abriu a possibilidade de mais reeleições por conta da Rio-2016, os cartolas foram duramente criticados pelo que foi visto como uma tentativa de se perpetuar no poder.

Nesta entrevista ao blog, Lacerda critica os efeitos negativos da burocracia da máquina estatal, questiona a falta de isonomia das ONGs em relação às confederações nacionais e confessa que “não aconselharia nenhum parente a virar presidente de confederação”.

Blog do Ohata: Você teria direito a concorrer à reeleição, por que abriu mão [a eleição está marcada para este sábado]?

Jorge Lacerda: Vi que presidentes de outras confederações já se reelegeram este ano ou encabeçarão chapas, mas no meu caso fiquei até agora exclusivamente pela Rio-2016. Cumprido esse ciclo olímpico, deixo a CBT sem dívidas, com programas estruturados, com patrocinador [Correios] com quem vamos renovar o contrato em setembro, parceiros, e com uma chapa de consenso, apoiada pelas 26 federações, bem diferente da situação de quando assumi a confederação [após a saída de Nelson Nastás]. Nosso compromisso com o Refis termina em novembro, então vou passar a confederação em abril com 0 de dívida, auditoria interna, externa, dos Correios. A transição vai ser bem tranquila, porque os três já trabalham na confederação. O candidato é o atual diretor-executivo, Rafael Westrupp, e os vices que já estão hoje [Jesus Tajra e José Guilherme Danelon].

Você permanecerá do corpo diretivo da confederação?

Não, vou sair completamente. Quando anunciei que iria continuar até a Rio-2016, muita gente chiou, disseram que era para me perpetuar no poder, ninguém acreditou. Pois aí está.

Por que o Brasil não aproveitou a febre do Guga?

O grande auge do Guga foi 1997 a 2001, quando ele ganhou Roland Garros duas vezes, e 2000 quando foi campeão do Masters. Nessa época [2002 a 2004] estávamos brigando com a direção da CBT, que não era nada transparente, complicada. Assumimos em 2005 e demoramos 2 anos para reformular financeiramente a entidade.

Ao assumir, você disse que era ruim o tênis depender de apenas uma empresa, à época da Koch Tavares. Mas hoje a CBT depende dos Correios. Não é uma contradição?

Não. O Nastás tinha só uma empresa de marketing ligada à entidade, a Koch Tavares. A CBT tem contrato com várias entidades de marketing, até a Koch Tavares. A gente apoia a busca de patrocinadores para grandes eventos. A própria Koch tinha o Brasil Open e a CBT a levou para dentro dos Correios. A IMX, atual IMM, que tem o Rio Open, também levamos para dentro dos correios. Essa é nossa função, sem ganhar nada. Dependemos de um patrocinador [Correios], que representa 65%, 70% de nossa verba, mas a entidade tem outras fontes, como a Lei Piva, as taxas que recebemos, os patrocínios de Asics e Tretorn.

A CBT fixou uma meta para a Rio-2016?

Nossa meta era colocar uma equipe forte e a melhor possível na Olimpíada. Colocamos 7 jogadores na Olimpíada, a maior equipe que o Brasil colocou até hoje. Dois em simples [Rogério Dutra Silva e o Thomaz Bellucci], duas duplas [Bruno Soares e Marcelo Melo e Bellucci e André Sá], a Teliana Pereira [em simples feminina] e a Paula Gonçalves, que vai jogar dupla com a Teliana. Meta de resultado, acreditamos em medalha em dupla, dupla mista e, em simples, o Bellucci pode ganhar de qualquer jogador, dependendo do dia e do sorteio da chave.

Quais os pontos fortes de sua gestão?

Na formação de treinadores, nosso capacitador [Cesar Kist] foi contratado pela Confederação Sul-Americana e pela Federação Internacional de Tênis. Reformulamos o infanto-juvenil. Com isso, fechamos 2014 com 3 jogadores entre os 20 do mundo no juvenil. O Brasil voltou a ter o número 1 de simples nos 18 anos, chegamos a títulos juvenis em Wimbledon e Roland Garros e fomos campeões dos Jogos Mundiais da Juventude. E tem outra geração forte dos 16 anos chegando. Temos jogadores que com 12 anos estão disputando seu respectivo Mundial. Um exemplo desse investimento é o Thiago Monteiro, com 22 anos, chegou esta semana a 104 do mundo, e tem mais 4 ATPs para jogar até o fim do ano. Ele vinha com a gente desde juvenil e deve virar top 100. Superamos a Argentina no Sul-Americano. Investimos no profissional, hoje todos na CBT recebem salário, o que antes era proibido. Nunca tinha havido investimento em jogadores profissionais, hoje há 25 que recebem bolsa, passagem.

Você foi alvo de denúncias durante sua gestão. Como no caso daquele projeto conveniado com o Ministério do Esporte em 2011/12 com o Larri Passos, que consistia em treinos e viagens para competir. 

Naquele projeto a passagem representou um problema sério. Cada alteração de vôo, o que na carreira de um tenista é normal, foi considerada como uma irregularidade. A Controladoria Geral da União argumentou que foi uma irregularidade, mas que não houve dano ao erário. Mas o tenista que é eliminado na primeira rodada não pode ficar parado. Ou volta para o Brasil para treinar, porque perde gratuidade de hotel, o que gera mais gastos, ou vai disputar o qualyfying de outro evento para não perder pontos. Não dá para comunicar [sua eliminação de um torneio] com antecedência, pois depende de jogo para jogo. O Ministério entendeu. Mas precisa ter quem entenda de esporte no ministério ou nas secretarias.

Houve também problema com a Lei de Incentivo ao Esporte.

O artigo 12 da Lei do Esporte proíbe a intermediação, e é aí que entram as ONGs, que teoricamente não têm fins lucrativos. O que acontece na prática é que empresas de marketing esportivos criam ONGs paralelas, “de fachada”. Quando a Premiere trouxe para o Brasil um grande evento que contou com a participação de “nomes” como Andre Agassi, para entrar na lei de incentivo, ao invés de criar ONG, o que seria proibido, mas que tem empresa que faz, ela trouxe o projeto para a CBT, que entende que é bom trazer grandes eventos ao Brasil. Porém entenderam que houve intermediação, mas na verdade foi uma parceria.

Agora, o que acontece por aí é que tem empresa cujos sócios e a mulher de um deles formam uma ONG inclusive com nome muito parecido com o da empresa [o Ministério Público confirmou que investiga esse modelo de irregularidade que teria sido praticado por uma empresa que atua no tênis].

Nos afastamos da lei de incentivo. Preferimos reduzir as fontes de receita e trabalhar dentro da verba sem risco. Não podemos estar à merce de um técnico e sua interpretação de uma lei que não é especifica, senão há o risco de perder o patrocínio público.

Em relação às ONGs, acho engraçado elas não terem conselho fiscal, auditoria interna, eleição de dois em dois anos, ou quatro em quatro anos, e muita gente que diz que a gente [cartolas] se perpetua no poder. Aliás, como levam nomes de pessoas, nem tem como mudar a direção. ONGs não tem obrigação de desenvolvimento do esporte, se fecha, não se sabe para onde foram seus responsáveis. Quem trabalhou para cobrar transparência na Lei do Esporte poderia ter permitido que suas ONGs fossem incluídas nos requisitos de transparência dessa lei.

Na época em que você assumiu a CBT, você aceitou muitas alianças para tirar o Nastás do poder. Se arrepende?

Em todo ramos que você entra tem concorrência. A Gente buscou parceria de todo mundo, mas não conchavos. Muita gente não entendeu isso. Muitos que nos apoiaram acharam que iriam ter cargo remunerado. Não tínhamos dinheiro para pagar aluguel, não tinha como satisfazer essa gente, que acabou se sentindo traída. Muita gente que saiu [da CBT], começou a fazer denúncias para um grupo que hoje é investigado pelo Ministério Público. Quem entra no poder tem que estar preparado porque vai sofrer pressão. Parceiros que viram inimigos porque achavam que iam receber vantagens.

Você tem filhos?

Tenho uma filha.

Você recomendaria para sua filha ser presidente de confederação?

Não, não [riso tímido].  Não recomendaria.

O que acha que deve ser feito nesse próximo ciclo olímpico com perspectiva de uma torneira de investimentos públicos fechada?

Acho que tem que inverter os investimentos. Se investiu no topo da pirâmide por causa da Olimpíada. Não paramos o investimento na base, mas vamos intensificar o trabalho da massificação com tênis na escola. Há 10 projetos em Ceilândia e agora 43 em São Paulo. Não precisa de quadra de tênis. Dá para fazer em uma quadra de futebol de salão para 50 crianças em uma aula de 1 hora. Os melhores são pinçados e vão para uma academia ou um clube.

Mas você continuará na Federação Internacional de Tênis?

Saí da ITF. Agora vou descansar seis meses e trabalhar para mim, ver que oportunidades existem para mim. O que tinha que fazer no tênis já fiz. O [dirigente] brasileiro não consegue desgarrar, começa a achar que é dono da entidade que preside. Vou sair da CBT, a chapa que está assumindo tem pessoas muito boas. É como filho que você diz, ‘vai’, e ele vai para universidade, depois vai trabalhar. Não que você nunca mais vai falar com ele, mas deixa ele seguir seu próprio caminho.


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